TAJETÓRIA: O primeiro maranhense na lista dos bilionários

Foto:  Ilson Mateus ( Reprodução )

 

O HOMEM, OS NÚMEROS, O NOME

—- Ilson Mateus é o 9º mais rico do Brasil.
—- Grupo Mateus oferta parte das ações neste 9 de outubro, quebra dois recordes na Bolsa de Valores e arrecada R$ 4,6 bilhões.
—- Ilson Mateus e familiares ainda mantêm consigo cerca de 80% das ações

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Este ano de 2020 será inesquecível para bilhões de pessoas no mundo, por motivos iguais para todos — a pandemia do novo coronavírus. Mas para um brasileiro, maranhense e imperatrizense, além da pandemia (que afetou sua vida, seus colaboradores e seus negócios), 2020se tornará marcante por motivos igualmente além do controle dele: sócio majoritário (dono) do Grupo Mateus, Ilson Mateus Rodrigues conquista feitos inimagináveis — embora desejáveis e desejados — no mundo dos negócios maranhenses e dos grandes negócios corporativos do País. Nesta sexta-feira, 9 de outubro de 2020, o Grupo Mateus, antes familiar, fez a oferta de parte de suas ações e arrecadou nada menos do que R$ 4 bilhões e 630 milhões, feito e valor inéditos este ano na Bolsa de Valores, além de ser a maior estreia de um grupo empresarial com origem no Nordeste do Brasil em toda a história da Bolsa de Valores brasileira.

Um pouco de história…

Somente nesta segunda semana de outubro de 2020 começou a circular nas bancas de jornais de Imperatriz (MA) o número 80, de setembro, da edição brasileira da centenária, prestigiada e famosa revista norte-americana “Forbes”, com a lista das 238 pessoas mais ricas do Brasil — os bilionários.

Até onde se sabe, pela primeira vez, alguém declaradamente maranhense e, em especial, alguém comprovadamente imperatrizense consta dessa lista – e a ela chegou chegando: ao invés de apenas CONSTAR, veio para CONTAR, entrando logo na NONA posição, ou, em outras palavras, é um dos nove mais ricos do País.

Como está na capa da revista, trata-se de um número diferenciado: é a “edição especial de aniversário” da “Forbes” brasileira, que teve início em 2012, com uma linha editorial “positiva e propositiva”, conforme decidiu o empresário ítalo-brasileiro Antonio Camarotti, que trouxe a revista para nosso País — e que não deixou de ouvir palavras de descrença de quem argumentava que “o que ‘vendia’ no Brasil era a desgraça”.

A revista foi fundada em 1917, nos Estados Unidos, por Bertie Charles Forbes, mais conhecido por BC Forbes, um escocês proveniente da pequena localidade de New Deer e que se naturalizou norte-americano. Até morrer em 6 de maio de 1954, uma semana antes de completar seus 74 anos de vida, BC Forbes dirigiu pessoalmente sua revista, pois não tinha sido à toa que dera a ela seu próprio sobrenome e a transformara em referência no mundo da economia, negócios, finanças e listas de “mulheres poderosas”, celebridades ricas, e um pouco de notícias do mundo da Tecnologia, das Comunicações, da Ciência e do Direito.

Se, no mundo dos negócios, o assunto é dinheiro — aliás, muuuuuito dinheiro –, então é “Forbes”. Não sem razão, a “Forbes” é (re)conhecida como “a ferramenta capitalista” (“The Capitalist Tool”). A sede mundial da revista fica em Jersey City, no estado de New Jersey, onde — pouca gente sabe — geograficamente se localiza a Ilha da Liberdade e a mundialmente famosa e evocativa Estátua da Liberdade, cujo nome oficial é “A Liberdade Iluminando o Mundo” ou, em inglês, “Liberty Enlightening the World” e, em francês, o idioma em que foi projetada e construída em 1886, “La liberté éclairant le monde”. Ali está esculpida a deusa Libertas, tendo aos pés uma corrente quebrada e, na mão direita, a celebérrima tocha, e, na outra mão, uma tábula de leis, como a lembrar as tábuas mandamentais de Moisés ao povo hebreu. Por acordo, a Ilha da Liberdade é federal mas, digamos assim, é operacionalizada pelo estado de Nova York, ali pertinho, com um porém: todo o dinheiro do turismo vai para o estado de New Jersey.

Nessa história da “Forbes” e de dinheiro entra o maranhense-imperatrizense deixado anônimo lá em cima (pois é no alto que ele agora, e pioneiramente, está…). Ilson Mateus Rodrigues, o bilionário maranhense, tem lá suas parecenças com Bertie Charles Forbes. Os dois têm origem humilde. Ambos tiveram de se esforçar muito. Forbes e Mateus controlam seus próprios negócios. O principal negócio de ambos levam o nome de cada um — e cada um tem três nomes, o jornalista com 19 letras, o varejista com 20.

A diferença é que, se o escocês Forbes precisou cavar riqueza fora de seu país, o brasileiro Mateus sequer precisou cavar fora de seu próprio estado para se estabelecer — e quando foi, literalmente, como garimpeiro, escavar fora do Maranhão, não teve sucesso…

O sucesso começaria na própria hinterlândia maranhense, e ele veio certo, de forma líquida — vendendo pinga, cachaça. E o sucesso não só começou como continuou pela boca dos outros — vendendo alimentos.

De lá para cá, como o nome daquele trecho musical com aumento progressivo de intensidade sonora, foi só crescendo. Claro, nesse intervalo e até hoje, sem vislumbre de parar, muito trabalho, muitos percalços e obstáculos, algum disse me disse, pois é mais fácil falar do outro do que fazer como o outro, com o outro.

Nessa história de “Forbes” e dinheiro, imagine você que toda a riqueza do Brasil, em 2019, era da ordem de R$ 7 trilhões e 300 bilhões. Pois, entre os 211.755.692 brasileiros, o grupo dos 238 em que agora se encontra o imperatrizense Ilson Mateus Rodrigues tem ou detém, só esse grupo, 21,91% dessa riqueza, ou R$ 1 trilhão e 600 bilhões.

Sendo o único bilionário maranhense na lista miliardária, Ilson Mateus, com seus R$ 20 bilhões, não só é a nona pessoa mais rica como também posicionou o Maranhão na coincidente posição número 9 entre os Estados, praticamente empatando com o Paraná (R$ 20 bilhões e 90 milhões) e superando Pernambuco, Pará, Espírito Santo e Paraíba.

Sem querer fazer pouco, mas o MA de Maranhão e de Mateus, com seus R$ 20 bilhões, “engole”, juntos, três desses estados… O Maranhão, entre 27 Unidades Federativas, está à frente de 18 Estados, ficando atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Ceará, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Goiás e Paraná. São Paulo tem 99 bilionários; Rio de Janeiro, 34; Minas Gerais, 24; Santa Catarina, 18; Ceará, 16; Rio Grande do Sul, 14; Pernambuco, 6; Paraná, 5; Goiás, 4; Espírito Santo, Maranhão, Pará e Paraíba, 1 bilionário cada.

A imensa fortuna desses 238 brasileiros poderia ser maior se fossem consideradas as “coisas” de valor que eles, bilionários, não deixaram se tornar públicas. Como diz a “Forbes”, só foram consideradas as informações de acesso público, “oficiais e confiáveis”. As riquezas que, ainda que oficiais, não são de acesso público (a declaração de Imposto de Renda por exemplo, onde se detalham posses, haveres, bens) não integram a soma que cada “richest” (mais rico) tem. Itens patrimoniais como imóveis, aplicações financeiras, dinheiro no Exterior, pinturas, esculturas e outras obras de arte (e de valor), participação financeira em empresas de capital fechado e outros negócios acinzentados mas não escuros nem escusos — tudo isso ampliaria ainda mais o “totum” financeiro e o “quantum” dos muitos ricos.

O maranhense Ilson Mateus participa de pelo menos dois — moda, varejo e atacado; e alimentos e bebidas — dos três maiores segmentos, entre 19, em que estão os 238 bilionários brasileiros. O maior segmento é o “financeiro e investimento”, que, sozinho, abocanha mais de um quarto (25,8%) do total, confirmando que “dinheiro chama/atrai dinheiro” ou que “a água só corre para o mar” — claro, com alguns rios e riachos permanentes aqui e acolá, senão não se aguenta…

A quantidade dos brasileiros muito ricos aumentou consideravelmente desde 2012, quando a “Forbes” chegou ao Brasil. Pelos meus cálculos, o incremento foi da ordem de 230,55%: são 238 bilionários em 2020 contra 72 bilionários em 2012. Já quanto ao valor de todas as fortunas somadas, o aumento foi de 362,42%, comparando-se o R$ 1 trilhão e 600 bilhões atuais com os R$ 346 bilhões de oito anos atrás.

Das 146 páginas (46 de publicidade) da “Forbes”, três mencionam, em textos e tabela, o nome de Ilson Mateus Rodrigues. Diz de seu faturamento de quase R$ 10 bilhões e lucro líquido de quase R$ 340 milhões em 2019, mas não disse do faturamento do Grupo no primeiro semestre de 2020, de R$ 5 bilhões e 120 milhões (aumento de 30%) e lucro de R$ 297 milhões e 180 mil (aumento de 62%). Também, a “Forbes” não poderia dizer, mas pôde prever, acerca dos R$ 4 bilhões e 630 milhões arrecadados hoje, 09/10/2020, na Bolsa de Valores.

A “Forbes” conta também um pouco da história do imperatrizense Ilson Mateus, sua passagem como garimpeiro e nenhum pingo de ouro, e como vendedor de cachaça, quando seu ouro começou com a pinga…

É claro, em uma revista como a “Forbes” não há espaço para detalhes sobre Ilson Mateus, como o apelido “Miúdo” e os jogos de bola, na infância… O corpo franzino, Ilson Mateus mantém até hoje, e bola… bem, no plural, talvez só as de dinheiro, que os carros das companhias de transporte de valores vão regular e diariamente buscar nas suas quase 140 lojas e outras unidades empresariais em mais de meia centena de cidades de diversos estados.

Para um estado acostumado a ser pisado e repisado com os piores indicadores socioeconômicos entre as 27 Unidades Federativas,…

…uma terra acostumada a ser rica pela Natureza de Deus e empobrecida pela natureza do homem, pela hereditária vileza político-administrativa que submete seu povo a ser destinatário da pobreza e alvo de adjetivos nada substantivos como, por exemplo, “preguiçoso”,…

…por mais que leituras e subleituras anticapitalistas queiram desdizer ou desfazer, com seu redistributivismo igualitarista retórico ou igualitarismo redistributivista de boca…

…nesse cenário simultaneamente rico e pobre, a história pessoal-empresarial de Ilson Mateus é um alento e, até provas em contrário, é um orgulho. Pois não é fácil — como não foi rápido (são quase quatro décadas de trabalho constante) –, não é fácil, repita-se, chegar ao topo, ou, como foi apropriado pela “Forbes”, não é fácil “chegar lá”.

Afora os casos fortuitos de heranças e de excelência tecnológica (do mundo da Informática sobretudo), a esse “lá” geralmente só se chega após os 50, 60 anos de idade, nos negócios ditos mais tangíveis. Além do mais, para o “workaholic”, os muito trabalhadores, a luta pelo crescimento permanente ou pela manutenção do “status” empresarial-financeiro certamente consumirá décadas mais.

Isso quer dizer que não há tanto tempo assim para fruição, para gozo, para “gastar” o que se ganhou, “vivendo a vida”. Desse modo, a vida tem de ser vivida no seu percurso, as alegrias têm de ser geradas — e distribuídas e compartilhadas – no “hic et nunc”, no aqui e agora em que a existência se dá. Tem-se de gostar de trabalhar trabalhando no que gosta, pois assim o próprio viver-prazer se realizaria — o que chamo, com uma palavra que criei há anos, de “ergolagnia”, o trabalho-prazer ou prazer em trabalhar: do grego “érgon-”, ‘trabalho’ + “-lagneia”, ‘prazer’ (extensão semântica de origem libidinal).

Como quase é praxe ocorrer em ambientes menores e em mentes estreitas, os negócios e o sucesso do Ilson Mateus já foram atribuídos à influência de outros e até à sociedade com gente dita e tida como poderosa, sobretudo politicamente. Que ele tenha sido, e seja, procurado pelas excelsas figuras de sempre, que buscam “apoio$” para campanhas políticas, eu não tenho dúvidas — só que não há qualquer novidade nisso, nem no Maranhão nem do “A” de Abadia de Goiás ao “Z” de Zortéa, em Santa Catarina, no extenso alfabeto dos 5.570 municípios brasileiros.

O próprio Ilson Mateus me contou o quanto atribuem a outrem o êxito que decorre da luta cotidiana sua e de seus colaboradores: “ – Todo mês me dão um sócio”, disse ele, após mencionar dois dos nomes mais frequentes.

Isso foi há cinco anos, em 23 de setembro de 2015. Mateus e outros quatro empresários foram convidados por estudantes de Administração da Faculdade de Imperatriz (Facimp), a maior instituição de Ensino Superior privado de Imperatriz e região. Ele recebeu homenagens e fez uma palestra, contou sua luta.

A surpresa da noite foi eu ter sido convidado ao palco pelo coordenador do curso para uma homenagem especial, como ex-diretor da Faculdade mas sobretudo em razão de meus trabalhos técnicos, citados em textos e na bibliografia de um livro de Administração que estava sendo lançado naquela noite de quarta-feira, que marcava o encerramento da Semana do Administrador.

Após a solenidade, Ilson Mateus convidou-me para um jantar e conversa agradável, presente também Ana Clara Freire, uma “controller” maranhense que residia em São Paulo e foi trazida de volta à sua terra pelo Grupo Mateus. (“Controller” é o profissional responsável pela gestão contábil e planejamento financeiro de uma empresa, área chamada Controladoria).

Depois de falar sobre sua trajetória de vida pessoal e empresarial, em que, entre outras atividades, foi garimpeiro, vendedor de pinga e dono de mercearia, Ilson Mateus Rodrigues disse que, “apesar de sua história, todo mês me dão um sócio: uma hora é [José] Sarney, outra hora é [Edison] Lobão”.

Para Mateus, se ele tivesse sócios assim, “seria muito fácil crescer os negócios: bastaria ir até os ‘sócios’ e pedir o dinheiro”. Mas era o contrário: “Tenho de ir aos bancos” — como para buscar recursos para construir o maior Centro de Distribuição (CD) do grupo, à época, em território do município de Davinópolis, próximo de Imperatriz, ao lado da Rodovia Belém–Brasília. Para implantar esse Centro, Ilson Mateus contou que foi até a sede do Bradesco, em Osasco (SP), e, em audiência com o vice-presidente do banco, pediu R$ 150 milhões, e como terminara o período de carência, chegara a hora de começar a pagar — nada menos do que R$ 3 milhões 500 mil por mês.

Ilson Mateus contou histórias nada glamurosas de sua vida empresarial e humana, como a querer desmistificar a visão dourada que alguns têm acerca de grandes empresários. Ele detalhou aspectos da vida familiar, do quanto ele é subtraído da convivência com mulher e filhos (que ele diz serem “sua vida”). Disse ainda de como ficou durante 90 dias dentro do Centro de Distribuição, quase sem comer nem dormir, preocupado com sistemas de Informática que não “engrenavam”, com pessoal que se revelou, na época, ainda não suficientemente treinado etc. etc., e a repercussão disso tudo em meses e meses de prejuízos, porque o abastecimento às unidades do Grupo foi seriamente prejudicado. “Mas agora, não — ele respirara, aliviado –, tudo está funcionando e tenho a meu lado, no CD e em todas as unidades, um time de colaboradores comprometidos com a Empresa, com o bom atendimento”.

Ilson Mateus contou um episódio que ele reconhece que o afetou pessoalmente: com o novo e gigantesco Centro de Distribuição nas imediações de Imperatriz, era preciso fechar ou reduzir o CD de Balsas, bem menor. Para isso, foi preciso demitir mais de 1.000 funcionários em Balsas, cidade onde o Grupo Mateus teve início. Ilson sofreu duplamente: com as demissões e com as críticas de quem não tem como compreender e aceitar decisões empresariais necessárias à sobrevivência dos negócios e à manutenção de milhares de outros empregos, hoje mais de 20 mil em toda a Organização. “Em Balsas me criticaram de todo jeito; disseram que estava rico e que esqueci a cidade. Teve um tempo em que eu não deveria aparecer na cidade; poderia até ser apedrejado”.

Na época, as sempre renovadas dificuldades político-econômicas no Brasil levaram a uma ordem no Grupo Mateus: “Fazer caixa”, isto é, ter dinheiro para necessidades e oportunidades futuras. Cinco anos atrás, isso levou a serem suspensos quase todos os investimentos previstos, como a implantação de lojas em Caxias e outras em Imperatriz. Mas, pelo visto, a coisa mudou positivamente, pois já em novembro de 2019 foi inaugurada a grande loja de Caxias — o Mix Mateus, de atacarejo (atacado e varejo), no bairro Refinaria, na terra do poeta Gonçalves Dias.

Esse depoimento de Ilson Mateus Rodrigues, praticamente com as mesmas palavras e certamente com os mesmo fatos, é dito transparentemente em diversos lugares e ocasiões, seja em encontro com estudantes, seja em conversa com amigos ou em entrevistas para a Imprensa. O Grupo Mateus, além da parte mais visível que são os Supermercados, Mix, Atacado e Eletro Mateus, compreende também uma indústria de pão (Bumba Meu Pão) e a distribuidora de produtos farmacêuticos Invicta e outros empreendimentos.

Homem religioso, Ilson Mateus é mesmo do tipo “fé com obras”, pois, como está no bíblico livro de Tiago, a fé coopera com as obras e pelas obras a fé é aperfeiçoada (2:22). Dois versículos adiante, reitera-se: “[…] o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé”, pois, finaliza Tiago (2:24) “assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta”.

Mas como, no homem, toda fé chega depois do nome, talvez, quem sabe, o “segredo” do sucesso de Ilson Mateus Rodrigues já estivesse prenhe, grávido, em seus prenomes e no sobrenome. Afinal, palavras têm poder.

Com efeito, o muito conhecido nome “Mateus” — e o mais conhecido do homem e dos negócios do Grupo Mateus — já é, por si só, uma bênção vocabular: significa, na tradução/adaptação mais comum, “dom (ou presente) de Deus”. Isso porque, na antiga língua hebraica, de onde o nome se origina, “Deus” é “Iahweh” (Iavé ou Javé), oriunda do tetragrama IHWH, pois, por um respeito ou temor ancestral, não se podia pronunciar o nome de Deus. Assim, em hebraico, tinha-se “mattanyah” (veja-se a terminação “-yah”, início de Yahweh). O “mattanyah” hebraico foi para a língua aramaica de forma abreviada: “mattai” — e, daqui, foi para o grego, nas formas “maththaios” e “matthaios”. Daí para o latim “Mattheus” foi um pulo, e essa forma gráfica foi simplificada em português: Mateus.

Por sua vez, o primeiro prenome, “Ilson”, suas diversas origens se perdem (ou se acham) nas brumas de Avalon, quer dizer, da antiga Inglaterra. “Ilson” é variante ou simplificação de “Ailson”, e também, estendendo o território etimológico, teria a ver com um “filho de Hildo”, filho de um guerreiro, e “filho de Helena”, filho de uma mulher iluminada, pois a etimologia do antropônimo “Helena” remeteria a esse sentido de “fogo”, “brilho”, “luz”. No geral, os cabalistas da Onomástica (estudo dos nomes) “traduzem” que o nome “Ilson” é o de “uma pessoa otimista, guerreira e pertencente a uma família que luta pelos seus objetivos”.

Por fim, “Rodrigues” é um sobrenome vindo de um nome, “Rodrigo”. Assim como em inglês “-son” quer dizer “filho de” (Johnson, filho de John, João), assim também em romeno, com “-escu” (Simionescu, filho de Simion, Simeão), assim em outras línguas, também em português há uma partícula que, pelo menos antigamente, revelava descendência, origem: “-es”. Deste modo, Fernandes é filho de Fernando e Rodrigues é filho de Rodrigo. Já “Rodrigo” vem do germânico, velha língua indo-europeia. Para a formação do nome “Rodrigo” juntaram-se duas palavras, “hruot” (‘fama’) e “rik” (‘governante’). Vai e vem, no antigo germânico ficou “Hrodric”; no inglês antigo, “Hrodicus”; no latim, “Rodericus”; e, finalmente, em português, “Rodrigo” — e temos aí, por história e extensão, um nome/sobrenome que significa “governante/príncipe/administrador famoso”.

Agora, somem-se as características e virtudes de um “filho de iluminada com guerreiro” ( = Ilson) mais um “dom de Deus” ( = Mateus) mais um “administrador famoso” (Rodrigues) e temos a equação da vitória na palma do nome. E Titus Maccius Plautus, dramaturgo romano que viveu dois séculos antes de Cristo, poderia dizer como escreveu: “Este nome é um presságio” (ou, com a concisão latina: “Nomen est omen”).

Morei alguns anos em Brasília. Era assessor da presidência da maior instituição financeira pública de desenvolvimento regional da América Latina. Muitas das vezes, a pé, passava por um hotel — acho que o Naoum — cujo dono dissera algo como: “Só quem tem responsabilidade e gosta do que faz coloca o próprio nome no negócio”.

Sobre isso, o grande Miguel de Unamuno y Jugo (1864-1936), ensaísta, romancista, dramaturgo, poeta e filósofo espanhol, escreveu no ensaio “A Seleção dos Fulanos”: “O nome é em certo sentido a própria coisa. Dar nome às coisas é conhecê-las e apropriar-se delas. A nomeação é o ato de posse espiritual”. Por outro lado, Alexandre Canalini (1926-2016), médico, historiador, escritor e pensador cristão brasileiro, reconhece e adverte: “Para fazer um nome, / leva-se, às vezes, toda uma existência; / para arranhá-lo, destruí-lo, / basta apenas um segundo…”.

Ilson Mateus sabe, como o Homem-Aranha, que grandes poderes trazem, cada vez mais, maiores responsabilidades. Não é fácil o “poder”, o peso de R$ 20 bilhões, seja ele em sentido figurado ou — bem melhor… — em papel-moeda. Homem religioso que é, repita-se, Ilson Mateus sabe — pois a Bíblia ensina – que “o bom nome vale mais do que muita riqueza”, e que “ser estimado é melhor do que ter prata e ouro”. Nem sempre se conciliam riqueza e estima — mas, alguns cínicos diriam, não se vive mesmo para sempre… E quase todo mundo gostaria de ser “desestimado” com algumas dezenas de bilhões na conta…

É preciso responsabilidade e respeito para se fazer um mix com o Mateus, jogando na mesma panela textual ingredientes como palavras e números, idiomas e espiritualidade. Mas tudo isso, e muito mais (Darwin assegura) está interligado; apenas nós, enquanto Humanidade, é que ainda não tivemos tempo nem cérebro para o tanto de realidades que virão, de singularidades que se mostrarão, de verdades que se revelarão…

É claro que esse meio em que agora se meteu, ou ao qual foi (e)levado, o Ilson Mateus sabe que é um meio de troca-troca de posições ou até de sumiço delas. Em um ano pode subir, em outro, descer, ou desaparecer. É um ambiente instável. Volúvel. Volátil. O alfabeto empresarial tem tristes, dramáticos, trágicos e, às vezes, criminosos casos de extinção, no Brasil e no exterior: Arapuã (chegou a estar entre as maiores redes varejistas de eletrodomésticos do Brasil)… Blackberry (teve mais de 50% do mercado de celulares nos Estados Unidos)… Blockbuster (a maior franquia de aluguel de DVDs)… Enron Corporation (empresa norte-americana de energia; chegou a faturar 101 bilhões de dólares)… Gurgel (fábrica brasileira de automóveis)… Kodak (chegou a ter 80% da venda das câmeras e 90% de filmes fotográficos)… Lehman Brothers (um dos maiores bancos norte-americanos)… Manchete… Mappin (a grande loja de departamentos, várias vezes “empresa do ano”, considerada em sua época a “única loja de departamentos completa do Brasil com mais de 85 mil itens”)… Varig (por três décadas uma das maiores e mais conhecidas companhias aéreas privadas do mundo)… Vasp… Yahoo! (chegou a valer 125 bilhões de dólares como o maior portal de Internet do mundo)…

Às vezes, é um inimigo microscópico, invisível, que acaba de um dia para o outro toda uma história de vida pessoal e empresarial. O coronavírus de 2020 obrigou empresas aéreas a fazerem pouso forçado, como Aeromexico, Avianca, Latam… O vírus arrasou empresas varejistas grandes, centenárias na idade e bilionárias no faturamento (em dólares), como J. C. Penney e J. Crew, ambas dos Estados Unidos. O vírus deixou na lona o Cirque du Soleil e estacionou na garagem a mundialmente famosa Hertz, locadora de veículo…

São muitas as lições que o fracasso final deixa aos que confirmam um êxito inicial. “Sic transit gloria mundi” — “Assim passa a glória do mundo”.

Que Ilson Mateus sabe da transitoriedade da vida e das coisas isso não se discute, por óbvio que é. Ele, por antecipação e segurança, sabe apalpar com um dos pés os terrenos em que vai pisando… De areia movediça a buracos e desníveis… há de tudo no mundo dos negócios (na verdade, na má índole de pessoas que estão nos negócios). Por isso, Mateus vai continuar tendo muito trabalho para manter e fazer prosperar seus empreendimentos com sustentabilidade (é a palavra da moda) e, como corolário, continuar mantendo seu nome na lista da “Forbes” — coisa que, pelo pouco que sei dele, ele está pouco ligando, embora (e ele sabe disso também) essa visibilidade lhe acrescente ainda mais credibilidade, o que, por via de consequência, pode ser positivo para os (futuros) negócios do Grupo, os quais, intui-se, são muitos.

Que Ilson Mateus é cabra trabalhador, quase incansável, isto se sabe e os que convivem com ele confirmam. Não se tem notícia de que seu sucesso tenha, realmente, sido obtido a troco dos “sócios” — inexistentes — que aqui e acolá lhe dão. Tampouco se flagrou o Ilson Mateus comprando lá no Marrocos, nas Arábias ou nas Oropas uma varinha mágica, um pote de pó de pirlimpimpim, uma palavra ou frase mágica (“Abre-te, Sésamo”; “Shazam!”)…

Ou seja, se o que foi e está sendo conquistado não veio por milagre ou mágica ou outro modo esotérico, a melhor resposta para se conquistar o sucesso é a mais simples, nos termos do princípio investigativo chamado “Navalha de Occam”: trabalho, dedicação, produtividade, leitura adequada dos ventos e eventos e alguma esperteza negocial, pois Ilson Mateus não deixa de ter seu lado sestroso (aqui entendido, aquela pessoa esperta, viva, sagaz, “capaz de perceber algo rapidamente”, como está na definição do “Dicionário Houaiss”, o maior e melhor de todos em Língua Portuguesa).

“O trabalho só espanta as almas fracas”, disse Luís 14, o “rei sol”, da França, sucessor de Luís 13, o que deu nome, em 1612, à cidade de São Luís, a capital maranhense, onde está a sede do Grupo Mateus.

O poeta romano Virgílio, do primeiro século antes de Cristo, escreveu que “o trabalho persistente vence tudo”.

Na reportagem da “Forbes”, Imperatriz é citada de passagem, mas a cidade é permanente na história de Ilson Mateus, a partir mesmo de sua certidão de nascimento, há 57 anos. Pensando nisso, para Ilson Mateus, até nascer em Imperatriz deu certo. Pois a cidade o favoreceu com a “energia” do nome dela: na origem, a palavra “imperatriz” vem de um verbo latino (“paratum”) que significa “esforçar-se para obter”.

Esforçar-se para obter. Trabalhar para ter. Dedicar-se para vencer.

Realmente, palavras têm mesmo poder…

E em forma de palavras — não bilhões delas, o que é impossível –, saúde-se o primeiro maranhense e imperatrizense a entrar no fechadíssimo clube dos nove mais ricos bilionários de todo o Brasil…

…cumprimente-se o maranhense e imperatrizense que, neste 9 de outubro de 2020, acaba de quebrar dois recordes na B3 (a Bolsa de Valores), arrecadando R$ 4 bilhões e 630 milhões, tornando-se o maior IPO (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) no ano de 2020, até agora, além de o Grupo Mateus tornar-se o que foi classificado como “a maior estreia de uma empresa com origem na região Nordeste da história da Bolsa brasileira”.

Embora a bilionária arrecadação com a oferta das ações de seu Grupo, Ilson Mateus e familiares continuarão como controladores absoluto do negócio, pois ainda mantêm cerca de 80% das ações do grupo em seu poder.

Como disse esse empresário de Imperatriz: “Acreditar no trabalho inspira a acreditar nas pessoas e no Brasil, porque somos um só coração! O sonho é o primeiro passo para realizar grandes conquistas.”

O ano de 2020 está confirmando essas grandes conquistas.

Parabéns, Ilson Mateus.

EDMILSON SANCHES
edmilsonsanches@uol.com.br

Fotos: O empresário imperatrizense Ilson Mateus Rodrigues na revista “Forbes”, o primeiro bilionário maranhense e um dos nove mais ricos do Brasil; uma das quase 140 lojas do Grupo Mateus; e o jornalista BC Forbes, criador da revista que leva seu nome desde 1917.

 
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Categoria: Cidades

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